terça-feira, 29 de junho de 2021

Bordado

 

Bordado já começa com o dado.

A linha na agulha junta,

o que da alma foi separado.

O pano, vira palco do 

Nó Encantado.

As mãos, atrizes de

Amor emaranhado.

quinta-feira, 24 de junho de 2021

Nossa noite de São João

 No embalar da rede mansa

ofereci meu corpo ao tempo.

E na ausência de pressa de quem descansa

fui embebido pelo momento.

A faísca subia

por entre as folhas do abacateiro

e teu corpo entregue, reluzia,

naquela noite de sonho verdadeiro.

As estrelas que outrora eram imensidão,

num momento de ternura, chegaram próximo à visão

e como nas fantasias que alimentam a imaginação

foram enfeites, na nossa noite de São João.

terça-feira, 27 de abril de 2021

Pará memórias

 Rua de terra, cheiro de coco babaçu

calor de ficar quase nu

e a meninada no alvoroço do esconderijo.

A vida se concretizava em salvar a latrinha

no 20 a rua já estava vazia.

no 30 silenciosa

no 40 parecia desabitada

e finalmente no 50 o coração não cabia na boca.

Quem contava tinha que ficar de olhos atentos

a maestria de derribar a latrinha podia fazê-lo ou fazê-la contar novamente.

Assim a vida ia acontecendo 

no pêndulo de derribar e levantar. 


Victor Manoel.

quinta-feira, 22 de abril de 2021

A vida tocada em ré.

 A vida tocada em ré

não segue um linear.

Na sombra e na luz só é

uma pena de avoar

Que passa por sobre a terra

deslizando em caminhos,

às vezes acerta às vezes erra,

faz de rosa os espinhos.

Se fura o dedo e sangra

brinca com o vermelho forte

busca, nada, voa e anda,

procura o esconderijo da sorte.


Victor Manoel.

quarta-feira, 14 de abril de 2021

Três oreia

 Três oreia veio junto com a boiada de leilão,

Chegando lá na fazendo já pulou do caminhão

Saiu numa valentia batendo os casco no chão eô

 

Depois dessa ousadia

Os vaqueiro e as montaria

Abriram uma correria pra pegar o bicho fujã oeô

 

A carrêra durou dia

Desistir ninguém podia

Os cavalo até gemia com o urro do boião eô

 

Enquanto o boi corria

Os vaqueiro se movia

Mas parece que ele sabia do destino do ferrão eô

 

Esse boi de valentia

Só queria sua alforria

Não comia nem bebia correndo nesse mundão eô

 

Pra findar a feitoria

Foi trazido um boi de guia

Que era o jeito que valia a força do nelorão eô

 

Depois de muito afamado

O nelore foi trelado

No chifre desse erado pra completa a missão eô 


Foi assim que foi levado

Mas deixou muito acamado

Mais de cinquenta peão eô 

 

Esse boi fez muita história

Guardei bem na minha memória

 Sua força e sua feição eô   

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Crianças

 

E lá vai a criança

Com a coragem debaixo do pé

Umas tralhas nos cantos da vida

E cheio de engenhoca pra justificar o dia

 

A outra criança é menor, mas só de tamanho

Leva a alegria entre os dentes

E a força bem guardada

No emaranhado dos cabelos.

 

De perto vão descobrindo o colorido da noite

E o escuro do dia.

O molhado da poeira

E a secura da água.

O balanço do muro

E o parado do balanço.

E mais de perto ainda vão descobrindo que:

Do avesso as coisas mostram seu interior.

sábado, 16 de janeiro de 2021

Viver é cotidiano.

Viver é cotidiano.

Reside na poeira sobre a mesa

a delicada percepção das mudanças.

Só com o olhar atento percebemos o amontoar de partículas

e o movimento da sua dança.

Tudo que fazemos, enquanto seres vivos, é rotineiro

o resto é trama pensada para nos tornar prisioneiro/a.

Invocamos na memória aquele pequeno segundo

escondido na lembrança

e nos dedicamos a pensar no infrequente, no invulgar, no inusitado,

prova maior do nosso engano,

pois o que realmente nos falta é 

viver o cotidiano.