quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Tropidurus

Tropidurus



Animalzinho de fácil convivência. Pequeno, quase sempre escondido motivado por seu sangue frio, ora sol ora sombra. Higienizador de quintais, combatente de tropas daqueles munidos com exoesqueleto, em principal a representação do abominável, para muitos, a pobre barata. Réptil por cumprir as exigências da classe, ele sem demasiado esforço muda seu plano de marchar, pouco importa se é vertical ou horizontal não tendo superfície deveras lisa seu andar é o mesmo. Pegou fama entre os meninos de “concordador” , todas as perguntas que lhe fazem a resposta em brusco movimento concordante é sempre a mesma, parece até que concorda por vontade. Criatura incrível, como todas as observadas com minúcia, suas defesas são um tanto drásticas, pois automutilação por contração muscular de um pedaço do corpo é um ato que lhe custa dor e imperfeição e produzir forte som na corrida descreio ser tão eficaz, mas se o perigo vem de um ser humano esse sim há de se espantar, sempre o primal pensamento é que seja um animal com grau de periculosidade maior.

Foi na Serra do Taquaril que num dia de grande agonia e busca incessante por respostas que não sei a origem das perguntas, fiz do nascer do Sol uma fonte de soluções, só não esperava vivenciar tamanha interação com o misterioso animal supracitado. Acordado desde o segundo cantar do galo, tomado por um desespero que incita o caminhar rumei antes do raiar do dia para o encontro do astro rei.
No trilhar, com a consciência obnubilada não sabia ao certo, mas para fins de momento tudo eram mensagens endereçadas a mim: o voo do mosquito, a placa do carro, o canto das aves, as cores das casas. Parecia que o segredo de todos os cosmos estava sendo revelado em singelas manifestações que deveria eu compreendê-las. Cheguei ao topo da serra onde se tem uma boa visão do banho de luz da vegetação, no entanto uma torre repousa nesse mesmo lugar impedindo assim a total harmonia com o meio, mas foi motivo de essa existir que nesse dia experimentei algo esplendoroso. Buscando cegamente por tais respostas me coloquei de costas para torre e frente ao leste esperando a magia acontecer. Estando ali por quase duas horas comecei a perceber a ridícula situação que me encontrara, logo decidi ir dali. Quando tomei a trilha de volta enxerguei preso dentro de um buraco cavado no muro que protege a torre um calango, que pelos indícios parecia ter adentrado ali devido seu reflexo ameaçador em um espelho ao fundo dessa incisão no cimento. Agora frente para torre e costas para leste, fiz um esforço hercúleo para retirar da prisão o inocente que mal sabia que era ele mesmo no espelho, a façanha deve ter perdurado por umas quatro dezenas de minutos até que o libertei passando pela fina tela que lhe deixou marcas.
Após o acontecido uma sensação de plenitude me tomou em involuntário abraço, pude perceber que aquele ser que não entendo sua fala e que acabara de ser liberto de alguma forma, como por gratidão, me doou as respostas que eu nem buscava, mas que eram as que eu realmente precisava.

Nesse dia o Sol não se mostrou; tempo de chuva. Banhei-me nela.  


Victor Manoel.

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