Tropidurus
Animalzinho de fácil convivência.
Pequeno, quase sempre escondido motivado por seu sangue frio, ora sol ora
sombra. Higienizador de quintais, combatente de tropas daqueles munidos com
exoesqueleto, em principal a representação do abominável, para muitos, a pobre
barata. Réptil por cumprir as exigências da classe, ele sem demasiado esforço
muda seu plano de marchar, pouco importa se é vertical ou horizontal não tendo
superfície deveras lisa seu andar é o mesmo. Pegou fama entre os meninos de “concordador”
, todas as perguntas que lhe fazem a resposta em brusco movimento concordante é sempre a
mesma, parece até que concorda por vontade. Criatura incrível, como todas as
observadas com minúcia, suas defesas são um tanto drásticas, pois automutilação por contração muscular de um pedaço do corpo é um ato que lhe custa dor e
imperfeição e produzir forte som na corrida descreio ser tão eficaz, mas se o
perigo vem de um ser humano esse sim há de se espantar, sempre o primal
pensamento é que seja um animal com grau de periculosidade maior.
Foi na Serra
do Taquaril que num dia de grande agonia e busca incessante por respostas que
não sei a origem das perguntas, fiz do nascer do Sol uma fonte de soluções, só
não esperava vivenciar tamanha interação com o misterioso animal supracitado.
Acordado desde o segundo cantar do galo, tomado por um desespero que incita o
caminhar rumei antes do raiar do dia para o encontro do astro rei.
No trilhar,
com a consciência obnubilada não sabia ao certo, mas para fins de momento tudo
eram mensagens endereçadas a mim: o voo do mosquito, a placa do carro, o canto
das aves, as cores das casas. Parecia que o segredo de todos os cosmos estava
sendo revelado em singelas manifestações que deveria eu compreendê-las. Cheguei
ao topo da serra onde se tem uma boa visão do banho de luz da vegetação, no
entanto uma torre repousa nesse mesmo lugar impedindo assim a total harmonia
com o meio, mas foi motivo de essa existir que nesse dia experimentei algo
esplendoroso. Buscando cegamente por tais respostas me coloquei de costas para
torre e frente ao leste esperando a magia acontecer. Estando ali por quase duas
horas comecei a perceber a ridícula situação que me encontrara, logo decidi ir
dali. Quando tomei a trilha de volta enxerguei preso dentro de um buraco cavado
no muro que protege a torre um calango, que pelos indícios parecia ter
adentrado ali devido seu reflexo ameaçador em um espelho ao fundo dessa incisão
no cimento. Agora frente para torre e costas para leste, fiz um esforço
hercúleo para retirar da prisão o inocente que mal sabia que era ele mesmo no
espelho, a façanha deve ter perdurado por umas quatro dezenas de minutos até
que o libertei passando pela fina tela que lhe deixou marcas.
Após o
acontecido uma sensação de plenitude me tomou em involuntário abraço, pude
perceber que aquele ser que não entendo sua fala e que acabara de ser liberto
de alguma forma, como por gratidão, me doou as respostas que eu nem buscava, mas
que eram as que eu realmente precisava.
Nesse dia o
Sol não se mostrou; tempo de chuva. Banhei-me nela.
Victor Manoel.
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